Quando voltar ao trabalho é motivo de doença

Ambiente hostil, conflitos não resolvidos e falta de civilidade na empresa causam até doenças e reações físicas nos funcionários

Danielle Nordi, iG São Paulo

Foto: Alexandre Carvalho/ Fotoarena Ampliar

A advogada Alaíde Boschilia, que por oito meses passava mal todas as manhãs quando tinha que ir para um emprego hostil

“O trabalho enobrece o homem” é apenas o mais conhecido aforismo dos muitos sobre a importância do trabalho no nosso bem-estar. Muitas vezes, além da remuneração e da independência financeira que ela proporciona, um emprego é também a oportunidade perfeita de ser reconhecido por seu talento, fazer novos amigos e estar inserido em um processo de aprendizado contínuo. Muitas vezes. Mas nem sempre.

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Para muita gente, voltar para o trabalho depois do feriado do Carnaval não tem apenas aquele gostinho amargo de fim de festa: é motivo de dor, sofrimento e até doença. Problemas, cobranças, relações complicadas, a culpa por não gostar do emprego quando muita gente gostaria de estar lá e, ainda, a impossibilidade de abandonar o ganha-pão, somados, tornam-se uma arma contra a saúde emocional e física de todos que estão inseridos nestes ambientes de trabalho hostis e prejudiciais. E os conflitos não ficam restritos a estes locais. Eles ultrapassam a barreira da vida profissional e afetam o dia a dia das pessoas, chegando a prejudicar relacionamentos amorosos, com a família e amigos.

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“Muitas pessoas adoecem pelo sofrimento a que são submetidas no emprego. Entretanto, é preciso saber que o trabalho pode ser fonte de prazer. Hoje em dia nossa identidade está muito relacionada com a nossa profissão. Muitas pessoas se sentem orgulhosas do que fazem pelo que representam na sociedade, e com razão. Ser produtivo é algo muito positivo que traz um ganho significante de autoestima” explica Duílio Antero de Camargo, psiquiatra e médico do trabalho do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP e membro da Comissão Técnica de Saúde Mental e Trabalho da Associação Nacional de Medicina do Trabalho.

Vômitos e tontura
Alguns anos atrás, a advogada trabalhista Alaíde Boschilia, 48, passou por uma experiência traumática. “Eu vomitava todos os dias antes de ir para o escritório. Sentia muita tontura e passava mal o dia inteiro. Procurei diversos médicos porque achava que era algum problema de estômago, mas descobri que não tinha nada de errado. Eu enfrentava um ambiente de trabalho terrível, mas custei até descobrir que era aquilo estava me deixando doente”.

A psicóloga clínica autora do livro “Motivação – Os Desafios da Gestão de Recursos Humanos na Atualidade (Ed. Juruá) Thalita Lacerda Nobre diz que, em geral, é possível detectar que algo está errado com alguém no ambiente de trabalho. “Dá para perceber que a pessoa tem mudanças de humor e comportamento. Passa a ficar mais irritada, dá sinais de um cansaço excessivo e adoece constantemente”.

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Ironicamente, o emprego era uma das indicações para que advogada se recuperasse de uma depressão. “A minha médica me disse que eu precisava me manter ocupada porque facilitaria muita a minha recuperação. Então, eu decidi volta a trabalhar”, diz. Ela estava afastada do mercado há sete anos, porque morava fora do país. “Ir para aquele escritório foi a única oportunidade que tive naquele momento. Eu encontrei no trabalho uma razão para viver. Mesmo com todas as humilhações que eu sofria lá, tinha mais medo de ficar ociosa e enfrentar a depressão novamente”, desabafa.

Alaíde conta que ela não era um problema isolado. “Era comum ver pessoas chorando pelos cantos. Tínhamos um chefe arrogante que não aceitava opiniões diversas das suas. Ele era agressivo com todos que trabalhavam lá. Eu me achava um lixo. Ele fazia questão de deixar claro que eu não sabia fazer nada sozinha, que dependia dele para tudo”, revela.

Sua vida mudou quando recebeu outra proposta de trabalho e resolveu pedir demissão. “Até mesmo quando fui comunicar meu desligamento fui maltratada. Expliquei que ficaria um mês para que outra pessoa pudesse ocupar a minha vaga, mas ele mandou que eu me retirasse imediatamente. Depois daquilo, tudo foi diferente. No meu novo emprego eu era valorizada. Hoje, sou uma pessoa realizada, forte e segura”.

Hematomas e enxaqueca
Mas porque alguém se sujeita a uma situação como esta? A resposta, muitas vezes, é simples: a pessoa precisa do salário. Uma paulistana que prefere não revelar seu nome conta que este é o seu caso. “Atualmente, eu trabalho em um local que detesto e que me deixa doente. Tive hematomas na pele, enxaquecas recorrentes e desenvolvi uma gastrite nervosa. Sempre soube que é o trabalho que me causa tudo isto. Não tenho como pedir para sair porque preciso do dinheiro. Não compartilho dos mesmos valores da empresa e dos meus colegas de trabalho. Os conflitos não são resolvidos e todo mundo acaba se estressando”.

Ao contrário dela, nem sempre a pessoa consegue detectar que sua insatisfação com o emprego está causando prejuízos em sua vida pessoal. “Muitas vezes um médico do trabalho consegue estudar o problema e encontrar o seu foco com mais eficiência do que quem está nesta situação. O distanciamento do conflito é importante para se conseguir um diagnóstico e um tratamento adequado”, ressalta Duílio, que vai relançar o livro “Psiquiatria Ocupacional” (Ed. Atheneu).

A paulistana conta que até pouco tempo atrás estava estagnada e completamente desanimada. Presa a uma empresa que não dá valor ao seu trabalho, começou a se sentir “descartável”. A frustração acumulada acabou interferindo no seu relacionamento amoroso. “Chegou um dia que meu marido me disse que não aguentava mais ouvir minhas lamentações e meu negativismo. Ele me fez enxergar que, se eu não tomasse uma atitude, iríamos ter problemas em nossa relação”, revela. Depois disso, resolveu mudar de emprego. Ainda está procurando algo em sua área, mas já visualiza uma solução.

“Eu aceito até mesmo um salário um pouco mais baixo. Eu preciso respirar um ar novo. Não posso continuar nesta situação de adoecer por causa do trabalho. Quero me sentir útil e contribuir com a função que desempenho”, diz.

A empresa tem prejuízo
Se muita gente sofre e põe sua saúde em risco pelo emprego, por outro lado, essa dor também não é um bom negócio para o empregador. “Um funcionário desmotivado e desinteressado é ruim em vários aspectos. Ele gera custos médicos importantes com faltas e licenças. A empresa que investe em qualidade de vida no ambiente de trabalho tem ganhos financeiros significativos”, explica Thalita.

Mesmo quem não falta, não dá lucro. “Ao contrário do ‘absenteísmo’, quando a pessoa não comparece ao trabalho, existe o ‘presenteísmo’ que é estar presente, mas com sintomas leves de alguma doença ou distúrbio. Os mais comuns são dores nas articulações, dor de cabeça, alergias, asma e problemas emocionais. Muitos estudos mostram que o ‘presenteísmo’ causa um grande prejuízo”, aponta o psiquiatra.

Por tudo isto é muito importante que os gestores das empresas estejam sempre de olho nas mudanças de comportamento de seus funcionários. “A figura do líder influencia muito na motivação diária. Às vezes é difícil, mas o chefe precisa encontrar tempo para ouvir mais o que sua equipe deseja para o futuro, bem como resolver os conflitos existentes”, destaca a psicóloga.

“Na nossa realidade, é difícil escolher um emprego. São raros os casos em que a pessoa pode esperar por algo que realmente a motive. Mesmo assim, ninguém pode desistir de ter um trabalho prazeroso. O ser humano precisa sempre melhorar. Enquanto não há uma solução definitiva, procure conviver diariamente com pessoas que se importem com seu bem-estar e assim amenizar um pouco o sofrimento”, completa Thalita.

Fonte: IG.com.br

“IG Delas -> Comportamento” – Publicado em 10/03/2011 às 07h03

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