Mortes de executivos acendem alerta sobre pressão profissional no setor financeiro

 Patrícia Dichtchekenian | São Paulo

Investigações veem indícios de suicídio em seis casos ocorridos nas últimas três semanas, em diferentes partes do mundo

A morte de um executivo do banco JP Morgan na terça-feira (18/02) é, aparentemente, o terceiro caso de suicídio de trabalhadores da instituição em 20 dias e pelo menos o sexto falecimento com os mesmos indícios no mercado financeiro em um mês. De acordo com a Bloomberg, um empregado – cuja identidade não foi revelada – se jogou de uma altura de mais de 20 andares da sede do banco em Hong Kong, fato que elevou as discussões acerca do nível de stress dos trabalhadores e das consequências da crise econômica em escala mundial.

Um ambiente competitivo, marcado pelo princípio da meritocracia, influencia profundamente a mentalidade dos seus funcionários. Após o estopim da crise econômica mundial de 2008, nem as empresas – muito menos as pessoas – conseguiram se recuperar 100% do choque. Paralelamente, criou-se uma série de novas regras de produção que implicaram a adaptação a um novo regime de organização que exige mais trabalho e menos ganho.

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“Os pacientes dizem para mim: por alguma razão, eu não estou mais fazendo dinheiro quanto eu fazia antes”, relata o Dr. Alden Cass, psicólogo e autor do livro “Bullish Thinking: The Advisor’s Guide to Surviving and Thriving on Wall Street” (“Pensamento ‘ascendente’: uma guia para sobreviver e prosperar em Wall Street”, em tradução livre), em entrevista ao Financial Post. De acordo com Dr. Cass, a pressão do emprego gera sofrimentos ocasionados por um sentimento de constante culpabilidade. Além disso, o perfeccionismo do funcionário é colocado em xeque quando este é deparado com situações de fracasso, que ampliam sua sensação de frustração.

Contudo, o panorama é ainda mais negativo, pois, mesmo quando lhe é oferecido um tratamento psicológico, o funcionário tende a recusá-lo. Aceitar ajuda faria dele mais fraco, segundo a ótica do agressivo mercado financeiro. “A personalidade do macho alfa dificulta a obtenção de ajuda. A gestão de Wall Street ainda está lutando para obter um nível de conforto em confronto com os funcionários que precisam de ajuda”, afirmou um executivo – que preferiu não identificar-se – ao Financial Post. Em troca disso, muitas vezes opta-se por álcool, drogas e luxúrias, tal como a figura de Leonardo DiCaprio, em “O Lobo de Wall Street”.

Mais cinco casos

Outro incidente de um funcionário do JP Morgan aconteceu no dia 3 de fevereiro, nos EUA. Ryan Crane, um dos diretores-executivos da sede nova-iorquina do banco foi encontrado morto aos 37 anos em sua casa, em Connecticut. No entanto, a morte de Crane só foi divulgada pela imprensa 10 dias depois.  Formado em Harvard, ele trabalhava no banco desde 1999 e liderava a unidade de equities – responsável pelas compras e vendas de ações com investimentos de clientes. Poucos detalhes foram dados a respeito das causas de sua morte. Segundo a Bloomberg, é preciso ainda aguardar o resultado de exames toxicológicos, o que demora cerca de seis semanas.

WikiCommons


Um dos prédios da JP Morgan, localizado na Inglaterra: pelo menos dois casos apontados como suicídio na empresa no último mês

Duas semanas antes de ser divulgada a morte de Crane, outro membro do JP Morgan teria se suicidado após se jogar do nono andar do arranha-céu da sede do banco no centro de Londres, no dia 28 de janeiro. Gabriel Magee, de 39 anos, trabalhava desde 2004 como vice-presidente do departamento de tecnologia do banco. Segundo a Reuters, a polícia declarou que o incidente não teve suspeitos e que os detalhes do ocorrido ainda não estão claros, acrescentando que os suicídios ocasionais de pessoas que trabalham em grandes bancos de Londres têm provocado críticas às demandas colocadas sobre alguns trabalhadores de serviços financeiros.

Em janeiro

Além dos três casos recentes de trabalhadores do banco JP Morgan, executivos de outras instituições financeiras também foram encontrados mortos sob circunstâncias suspeitas, que sugerem suicídio. No dia 26 de janeiro, William Broeksmit, executivo do Deutsche Bank, foi encontrado morto em sua casa em Londres, aos 58 anos. “Ele era considerado por muitos de seus colegas uma das mais sofisticadas mentes nas áreas de risco de gestão de capital”, disseram os chefes-executivos do banco, Anshu Jain e Juergen Fitschen, de acordo com o jornal britânico Daily Mail. Broeksmit trabalhava na área de risco e segurança do banco e havia se aposentado em fevereiro de 2013.

No dia seguinte ao incidente do Deutsch Bank, o diretor de gestão da Tata Motors, principal empresa indiana do ramo automotivo, morreu após cair do 22° andar do seu quarto de hotel em Bancoc, na Tailândia. Aos 51 anos, Karl Slym, de cidadania britânica, foi encontrado no dia 27 de janeiro pela polícia local. Segundo o The Wall Street Journal, ele estava na cidade para participar de uma reunião do conselho da unidade tailandesa da empresa. “Nós não encontramos nenhum sinal de luta”, afirmou o policial responsável pelo caso, Somyot Boonyakaew, à Reuters. “Nós encontramos a janela aberta e ela é muito pequena para Slym ter escorregado. Ele teria que ter escalado pela janela para cair, pois é um homem grande. De nossas investigações iniciais, acreditamos que ele tenha pulado”, completou.

Reprodução/ RusselInvestments

Economista Mike Dueker foi encontrado no dia 29 de janeiro; amigos dizem que ele ‘estava com problemas no trabalho’

O quinto caso é o do economista Mike Dueker, encontrado morto aos 50 anos nas redondezas da ponte Tacoma Narrows, em Washington, no dia 29 de janeiro. Ele trabalhava há cerca de cinco anos na Russell Investments, companhia norte-americana especializada em gestão de ativos e estava considerado desaparecido, segundo a Bloomberg. Na ocasião, a polícia local afirmou que trabalhava com a hipótese de suicídio, após Dueker ter se jogado de uma altura de 15 metros. Amigos afirmaram que ele “estava com problemas no trabalho”. Em seu último emprego, Dueker foi assistente do vice-presidente e economista-pesquisador do FED (Federal Reserve Bank) em St. Louis, nos EUA. “Ele foi um colega valioso; todos respeitavam suas habilidades profissionais e seu bom-senso”, disse o ex-presidente do banco, William Poole, de acordo com a RT.

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Os recentes casos têm acendido alerta sobre pressão profissional e uma inexorável comparação com a semelhante situação que acontecera na crise de 1929 – mas em proporções menores. Ainda há uma série de motivos pelos quais pode-se refletir o que tem causado tais mortes ou se elas são meramente contingentes. É sabido que empregos nas áreas financeiras são alguns dos mais estressantes no mundo inteiro. Para isso, bancos têm criado medidas para evitar casos de suicídio, estimulando o lazer e mais tempo livre. Alguns países europeus, como Bélgica e Holanda, reduziram o trabalho semanal de 40 para 30 horas, sem prejudicar sua economia. Na Alemanha, um empregado trabalha em média 35 horas por semana e o país é a quarta maior economia mundial.

Fonte: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/34006/mortes+de+executivos+acendem+alerta+sobre+pressao+profissional+no+setor+financeiro.shtml?utm_source=twitterfeed&utm_medium=twitter

“OperaMundi – ECONOMIA” – Publicado em 22/02/2014 às 11h00
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